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domingo, 3 de outubro de 2010


Eleições de 2010 - Quanta sujeira, hein


Fotos tiradas pelo Chico, na Ramiro Barcelos e redondezas, no domingo, 03 de outubro





























































Tudo o que fazemos gera lixo. Comer, morar, escrever, trabalhar. A democracia também gera seu lixo, claro. Infelizmente, para alguns candidatos e para os militantes que os apóiam (candidatos e militantes de diversos partidos tanto da “oposição” quanto da “situação”) a lixeira da democracia são as cidades em que vivemos, as ruas por onde andamos.
Essa é a conclusão a que se pode chegar observando o estado das ruas de Porto Alegre no domingo, 3 de outubro. Como se sabe, votar no Brasil não é um direito, mas uma obrigação. Domingo, de manhã, fui cumprir minha obrigação. Bem, um dos meus defeitos é que acredito em certos códigos de honra bem antiquados; por exemplo, eu esperava que, por estar cumprindo meu dever cívico, os candidatos e seus correligionários me devessem certas cortesias. Entre elas, a gentileza de não sujar a cidade onde moro. Mas o fato é que as ruas em torno à zona eleitoral onde fui votar pareciam uma grande cesta de lixo transbordando de papéis picados. Vi folhetos com as siglas de diversos partidos e com os nomes de diversos candidatos. A minha zona eleitoral é no Colégio Bom Conselho, na Ramiro Barcelos. A mesma situação ocorreu no Julinho, no Dom Bosco e em vários outros pontos da cidade.
Conversei com militantes, com um porteiro que trabalhava em um edifício na Ramiro, com alguns moradores dos prédios e também com moradores de rua. Os militantes disseram quase todos a mesma coisa: nenhum deles sabia quem havia espalhado os panfletos; alguns colocaram a culpa nos adversários. Eis um dos diálogos que travei na ocasião:
“O senhor sabe quem fez isso?”
“Deve ter sido o pessoal do (nome de um adversário)”.
“Quer dizer que não tem nenhum panfleto do seu candidato no chão?”
“Claro que não, é só procurar”.
“Procurar? Deve ter mais de um milhão de panfletos no meu campo de visão”.
Meu interlocutor deu de ombros e olhou para o chão. Para minha surpresa, ele pareceu meio constrangido e começou a varrer alguns papéis da calçada, com a planta do pé. Depois saiu andando sobre o tapete de papeizinhos com os olhos baixos, como se procurasse alguma coisa, obsessivamente, em meio àquele escarcéu de siglas, nomes, números e fotos (fotos sorridentes, claro; todas elas).
Dois moradores do local me disseram que, até as 2 da madrugada, quando chegaram às suas casas, a rua estava limpa. Um porteiro disse que, ao chegar ao trabalho, às 8 da manhã, a papelada já estava sobre as calçadas. Um funcionário do Colégio Bom Conselho confirmou que a sujeira já estava feita quando a votação começou. “Os panfletos estavam todos sobre as calçadas e algumas senhoras idosas estavam resvalando. Tivemos que varrer tudo para o meio fio, para evitar acidentes”, ele disse.
Logo, minha conclusão é que grupos de pessoas de diversos partidos andaram sujando as ruas de Porto Alegre, entre as 2 e as 8 da manhã, na “calada da noite”, como se diz, para evitar que suas ações fossem vistas por fiscais ou policiais. Se bem que, no dia anterior – sábado, 2 – por volta das cinco da tarde, eu vira um caminhão em alta velocidade nas redondezas do Bom Fim, com dois sujeitos na carroceria, jogando papéis na rua (será que nenhum fiscal, nenhum policial, nenhum representante da lei viu isso?) A cruzada da imundície começou na véspera, portanto, mas certamente atingiu seu ápice ao longo da madrugada, quando Porto Alegre foi transformada em uma grande lixeira da democracia.
Não sei quem é o responsável por essa sujeira. Mas sei de uma coisa: se candidatos a cargos públicos ou seus militantes estão dando esse exemplo, o que esperar do resto da população? É evidente que partidários desse ou daquele candidato dirão: ah, mas todo mundo suja; assim como dizem, frequentemente: ah, mas todo mundo rouba, etc. Bem, a constatação pode ser verdadeira: é provável que houvesse panfletos de todos os candidatos no chão; não sei. Mas a conclusão a que se chega com esse argumento é intolerável: ora – diz-se – se todo mundo rouba e se todo mundo suja, de que adianta fazer barulho? De que adianta reclamar? Bem, eu faço a pergunta oposta: de adianta não fazer barulho e não reclamar? Por favor, façam barulho e reclamem.
Candidatos e candidatas, tenham vergonha na cara. Coloquem a sua honra e do seu país ou estado acima da ânsia de vencer. Vale mais uma derrota digna do que uma vitória infame. E de qualquer forma, vocês esperam mesmo ganhar muitos votos sujando tudo na véspera da eleição? Proibam suas militâncias de sujar a cidade. Proibam seus correligionários de jogar qualquer coisa no chão. Até porque, senhores candidatos e senhoras candidatas, quem vai limpar essa bagunça não são vocês.




Texto,fotos, apuração e rabugice - Chico, alias JFHTJB, alias El Turco Gaucho, alias Urubu Redux.